terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Resenha: 'Nola', disco de estreia da banda DOWN

 





Contrariando a cena geral do cenário do rock, os anos 90 se apresentavam gloriosos para o jovem cantor Philip Anselmo. Ainda no fim da década anterior ele assumiria os vocais do Pantera, uma banda de glam metal que, até então, já havia lançado três discos e ainda não se encontrava, mesmo nos propícios anos 80.

A entrada de Phil na banda somada à mudança drástica de sonoridade do material fez a banda explodir em 1990. Nos quatro anos seguintes eles se manteriam no topo com três álbuns de grande sucesso mundial.

Apenas alguns meses após o lançamento do último álbum de sucesso absoluto do Pantera e ainda durante a turnê de divulgação do mesmo, Phil Anselmo ajustou sua agenda com os texanos e reuniu Pepper Keenan, vocalista e guitarrista do Corrosion of Conformity, Kirk Windstein e Todd Strange, vocalista e guitarrista e baixista do Crowbar, respectivamente e Jimmy Bower, guitarrista do Eyehategod. O supergrupo entrou em estúdio em 1994 e gravaram o álbum de estreia do Down.

Jimmy Bower era guitarrista de origem, mas tocou bateria na nova banda. Ele também já havia colaborado com o COC (Corrosion Of Conformity) e com o Crowbar, sempre sendo o responsável pelas baquetas.

Todos os integrantes do Down eram contemporâneos, haviam iniciado a carreira na mesma época e a maioria eram conterrâneos. Pelo menos três dele eram de New Orleans. Só não achei informações confiáveis sobre a cidade natal de Todd Strange. Pepper Keenan também não era de lá, mas, mesmo assim, tinha uma forte ligação com a cidade. A capital do estado da Louisiana sempre foi famosa por sua identidade com a música. Não por acaso, o disco debut do Down chamaria-se NOLA (abreviação de New Orleans – Louisiana).

Como não poderia deixar de ser, o álbum traz influência de todas as bandas de origem dos músicos. Sem contar que basicamente, todas as bandas se encaixavam no mesmo nicho. Anselmo chegou até a produzir sozinho o segundo álbum do Crowbar. Esse foi o único trabalho dele como produtor. No caso do primeiro registro do Down, produziram o material a própria banda e o não muito conhecido Matt Thomas.

Falando de forma mais direta, o álbum é uma verdadeira sequência de petardos. O primeiro deles chama-se “Temptation’s Wings”. Já na introdução da faixa que abre o disco, Keenan e Windstein fazem questão de deixar claro o papel das guitarras no som da banda. A gritaria de Phil Anselmo só é interrompida por um solo calmo e estranho dos guitarristas. Passado o solo, os cinco voltam a fazer o que sabem de melhor. Esse é um dos pontos altos das apresentações ao vivo da banda.

A segunda música é a que fez mais sucesso na carreira da banda, apesar de nem ela ter saído do cenário underground. “Lifer” começa com um riff poderoso de Pepper Keenan e conta com uma atuação menos intensa de Anselmo, exceto quando ele repete o verso “I’m a Lifer” com toda a energia que ele poderia tirar de suas cordas vocais. A título de informação, qualquer esforço mínimo de Philip Anselmo faria muitos de nós, simples mortais, perder a voz por alguns bons dias.

Nas duas primeiras faixas não há nenhum momento especial de destaque da cozinha, mas o conjunto da obra é destruidor. Baixo e bateria são responsáveis por um peso importante. As duas têm letras complexas e foram escritas por Anselmo e Keenan, os dois com maior participação nas composições da banda. Os outros músicos contribuem em uma ou outra faixa. A próxima é de autoria apenas do vocalista.

“Pillars Of Eternity” é de autoria apenas do vocalista. É uma pancadaria só. O batera Jimmy Bower é o primeiro a entrar em cena, seguido pelo restante do instrumental. Phillip Anselmo despeja todo o seu ódio e Windstein presenteia o ouvinte com dois belos solos na parte final da música.

A quarta faixa é “Rehab”. Ela foi composta pelo vocalista e pelos dois guitarristas. A música é claramente mais melódica, mas fala de forma enigmática sobre reabilitação, um tema bem presente na vida de Anselmo naquela época. Por isso o clima na primeira banda de Phil já não era dos melhores. Tenho pra mim que a criação do Down foi uma válvula de escape para o vocalista.

Rehab tem bastante groove e lembra o som do COC. Aqui Anselmo usa sua voz mais natural e limpa. Lembrando que a voz comum dele já é um tanto quanto cavernosa. Ele ainda atinge o gutural, mas em momentos isolados. Como normalmente sua voz já é muito grave, a transição do limpo para o gutural soa bem natural.

“Hail The Leaf” é soturna, misteriosa e repleta de distorções. Essa tem até uma ligeira ligação com a faixa anterior. Rehab trata da reabilitação enquanto Hail é praticamente uma aceitação do vício de modo geral. E como diz o compositor Phil Anselmo, o fumo o faz não sentir você e nada mais de tristeza e dor, nada mais.

“Underneath Everything” é a sexta faixa. O riff de introdução, de cara, me lembra “Walk”, o maior sucesso do Pantera. Não só por isso essa faixa me lembra muito a banda, pelos vocais de Phil, claro, e pelo conjunto de baixo e bateria. Além disso, os vocais sobrepostos do vocalista dão à canção um ar de modernidade. Na parte final da música há um dedilhado de violão. Coisa básica e desnecessária. Serve só de enfeite. A letra fala de uma descrença que leva à depressão.

“Eyes Of The South” tem uma introdução incomum. Após mais de um minuto e meio, o furacão Philip Anselmo acaba com a brincadeira dos quatro instrumentistas da banda com um sonoro “Goddamn!”. Ela também está entre as mais melódicas do álbum, ou melhor, menos pesada. Tem quebradas de ritmo e vocais limpos em alguns momentos. Em algumas apresentações ao vivo da banda, essa é a faixa de abertura. Normalmente Phil utiliza o tempo de sua introdução para conversar com a plateia. Essa e a anterior foram escritas pelo próprio Anselmo e Keenan.

“Jail” quebra todo o clima de pandemônio imposto por todas as músicas apresentadas. É uma verdadeira experimentação composta por quatro integrantes da banda. O único que não recebeu nenhum crédito pela composição é o baterista Jimmy Bower. A letra e a execução completa são densas e misteriosas. É a única faixa que envolveu músicos adicionais em sua gravação (teclado e percussão).

A voz de Phil é tão limpa como nunca e o conjunto é um tanto psicodélico. Isso mostra que psicodelia e Down (a banda) podem se encaixar numa mesma frase. É interessante que algumas passagens de outras músicas e principalmente em Jail, a banda se aproxima da sonoridade de seu vindouro segundo álbum, quando a abordagem do material dos garotos de Lousiana mudou radicalmente.

“Losing All” é uma das melhores! É apresentada por um riff duplo pesado e rápido das guitarras do Down seguido por mais uma boa atuação do vocalista. Já no riff a faixa me cativou. Mas a música é boa por inteiro. A banda se deixa levar por influências grunge e Anselmo guarda para a segunda metade sua voz mais agressiva. Até a letra lembra bastante a temática do movimento grunge, que explodiu nos EUA na mesma época do Pantera. Nesse caso o ponto alto vai para as guitarras. Como fazem uma senhora parceria Kirk Windstein e Pepper Keenan! Lembrando que em suas bandas de origem, os dois tocam guitarra base. No Down, os dois se revesam em base e solo.

A faixa dez chama-se “Stone The Crow”. De início ela mostra até um apelo pop incomum no universo da banda. Ainda no primeiro minuto os vocais de Alselmo lembram muito o ícone grunge Eddie Vedder. Mais um ponto positivo para o trabalho das guitarras na parte final da música. Na minha opinião, essa e a anterior Losing All, ambas compostas por Anselmo e Keenan, são as melhores do álbum.

“Pray For The Locust” é um dedilhado de violão de pouco mais de um minuto simples e bonito, sucedido por “Swan Song”. Como falar das guitarras é pleonasmo, vou falar da cozinha. O baterista Jimmy Bower castiga seu instrumento de trabalho sem dó nem piedade em todas as faixas. E o baixo de Todd Strange trouxe a ignorância e o groove do Crowbar para o Down. A energia dos dois é parte importante no peso do som da banda. O “canto do cisne” é de autoria de Phil Anselmo e fala até repetidamente de Deus sem nenhuma crítica ou ironia explícita.

“Bury Me In Smoke” dá o fim estiloso a NOLA. A música tem vocais rasgados, bom instrumental com groove e peso de sobra e belos solos na parte final. É o quarto single do disco. Os outros três são “Temptation’s Wings”, “Lifer” e “Stone The Crow”. Ainda sobre as melhores do disco, essa é digna de medalha de bronze. É mais uma escrita por Anselmo e Keenan.

Recomendo muito um show da banda realizado no House Of Blues em New Orleans (que eu saiba, não é oficial, mas o áudio e vídeo é muito bom. Achei no youtube). Público pequeno e banda pegando fogo encima do palco. Nessa apresentação, o álbum é tocado quase inteiro e algumas músicas tiveram até abordagens novas e interessantes. “Bury Me In Smoke” também fecha o show com os vocais de Phil Anselmo revezando entre o agudo e o gutural. Vocal limpo, nem pensar! Ponto para o batera Jimmy Bower, que, apesar de manusear as seis cordas no Eyehategod, parece ter nascido para comandar as baquetas. Todo o repertório ganha mais brilho diante da energia da banda, fugindo um pouco da produção seca da gravação do álbum.

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